Crítica: Dai-Nipponjin/Big Man Japan (2007) de Hitoshi Matsumoto

É do Japão (como acontece muitas vezes nestes casos) que vem esta quase inexplicável comédia fantástica, ou seja lá como se poderia categorizar este filme.  É um filme que parte das já tradicionais ficções de monstros gigantes (Godzilla, Ultraman) mas que em vez de perpetuar esse universo fílmico tenta ser realmente singular e estranho.

O filme vai alternando entre cenas totalmente contrastantes de pseudo-documentário e de combate. Nas primeiras seguimos Masaru Daisatô, um homem aparentemente banal, na sua vida diária enquanto que um entrevistador sempre invisível vai-lhe fazendo perguntas que ele vai respondendo sempre laconicamente e com ar inexpressivo – a expressividade guarda-a toda para o seu guarda-roupa digno de uma miúda de vinte aninhos. Apesar das aparências Masaru é tudo menos banal, ele é Dai-Nipponjin, um homem que se transforma em gigante para defender o Japão de monstros ameaçadores. O problema é que esse título, outrora ilustríssimo, agora só lhe permite viver modestamente dependendo das audiências televisivas dos seus combates que estão sempre a descrescer. Para além da sua vida profissional, a sua vida pessoal também não anda grande coisa estando separado da mulher e só vendo a sua filha uma vez por mês.

 

Essas cenas de falso documentário são, a maior parte do tempo, monótonas e lentíssimas, marcadas pela expressão de tristeza e abnegação do protagonista mas não deixando, por isso, de estar cheio de pinceladas de humor. Principalmente nas subtilezas dos diálogos que por vezes se tornam humorísticos apenas pelo quão trivial e sem sentido é o que sai da boca dos entrevistados.

 

As cenas de combate são simplesmente absurdas. Os monstros imaginados parecem ser o resultado das ideias mais estúpidas possíveis que foram arranjadas e isso é… bom! Vou arriscar descrever dois deles: temos uma galinha depenada que está ligada a seu olho gigante através de um cordão umbilical extensível ou ainda uma perna saltitante com a cabeça de actor de culto Riki Takeuchi (trilogia Dead or Alive de Takashi Miike). Eles são tão pouco “práticos” como parecem ser e essa ineptitude condiz com a de Dai-Nipponjin que, combatendo munido do seu tubo metálico, pouco mais demonstra que covardia e desnorte. Isso resulta em lutas nada épicas mas estranhíssimas em que ganha aquele que é, apenas e só, menos estúpido. Num caso isso até acaba num puro sketch humorístico em que ele confronta um monstro que bloqueia o trânsito casualmente encostado a um arranha-céus, segue-se um autêntico diálogo de bêbados: “Quê que queres!?” “Desanda! Olhó trânsito pá!” “Acabei de chegar!” (ou algo do género só que prolongado por longos minutos) – uma situação nada digna de semi-deuses gigantes.

 

Isso tudo muda quando ele enfrenta um monstro vindo da Coreia do Norte que não está com meias-medidas e o desanca sem piedade fazendo-o fugir sem olhar para trás, (ironicamente essa situação faz as suas audiências aumentarem consideravelmente). Esse terrível monstro, reflexo das tensões políticas contemporâneas no Extremo Oriente, surge outra vez num final (mais estapafúrdio que apoteótico) em que Masaru é salvo de outra sessão de pancada pelos heróis americanos (quem mais!?). Aí dá-se uma transição visual inesperada em que passamos do CGI de fraca qualidade do resto das cenas de monstros, (que não é propriamente um defeito já que o objectivo do filme não é certamente ser visualmente credível), para um universo de homens dentro de fatos com miniaturas de prédios hilariantemente más como cenário. E assim, esses estranhos sucedâneos de Ultraman em vermelho, azul e branco, espancam sem piedade a ameaça para espanto do Dai-Nipponjin. É realmente uma cena memorável em que nada parece encaixar verdadeiramente. A superfície artificial e fantasiosa de série juvenil de monstros contrasta com a crueza do combate, digno de uma qualquer luta de rua. Também a atitude dos americanos para com Dai-Nipponjin é ambígua, sendo por um lado figuras cordiais e protectoras, mas por outro frias e autoritárias. Um momento para ficar marcado na mente de qualquer cinéfilo viciado no absurdo e no trash.

Filmes como este não aparecem todos os dias, e não sendo Dai-Nipponjin nenhuma obra-prima é um filme digno do estatuto de culto pela sua originalidade e inteligência.


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